Nobunaga foi um grande homem — Religião, poder e os deuses do Japão
O que se segue é da coluna de Masayuki Takayama que encerra a edição da Shukan Shincho lançada hoje.
Este ensaio prova, mais uma vez, que ele é um jornalista sem equivalente no mundo do pós-guerra.
E prova também que o capítulo que publiquei imediatamente antes acertou em cheio no alvo.
É leitura obrigatória não apenas para o povo japonês, mas para pessoas de todo o mundo.
Nobunaga foi um grande homem
Yahweh, o Deus do judaísmo, criou o céu, a terra e tudo o que existe, inclusive o homem.
Só que cometeu um pequeno deslize: criou também Baal e uma multidão de outros deuses. Por isso, acabou tendo de ordenar ao povo judeu: “Não adorem outros deuses.”
O povo obedeceu. Então veio outra ordem: “Não pronunciem o meu nome em vão.”
Em outras palavras: nada de clamar “Deus, ajude-me” sempre que surge um problema.
Também não gostava de LGBT. Sodoma acabou consumida pelo fogo.
Os deuses japoneses são diferentes. Eles vivem para o povo.
Quando sobrevém uma calamidade, o deus a purifica e a lança ao rio; o deus do rio a entrega ao deus do mar; e, por fim, o deus das profundezas a enterra.
O deus do rio chegou até a fazer uma breve aparição em “A Viagem de Chihiro”.
Ise Jingu, Suwa Taisha, Toyokawa Inari e outros santuários dedicados a esses deuses erguem-se sobre a Linha Tectónica Mediana, a enorme falha que corta o arquipélago japonês.
É como se os deuses ali estivessem para conter os terramotos e as erupções provocados por essa falha.
Mas há uma coisa que os deuses japoneses detestam: a impureza. E, acima de tudo, a morte.
É por isso que funerais jamais são realizados dentro de santuários.
Antigamente, quando um criado estava à beira da morte, o patrão lhe dava dispensa. Muitos acabavam morrendo no caminho.
Em “Rashomon”, Akutagawa descreve uma Quioto abarrotada desses cadáveres.
Foi então que os monges perceberam uma oportunidade.
Quando Buda entrou no Nirvana, disse: “Não façam funerais.” Os monges decidiram fingir que não tinham ouvido.
Passaram a cuidar dos mortos.
Assumiram os funerais, venderam nomes budistas póstumos, stupas e lápides.
Negócio perfeito. Lucro total para os monges.
Com dinheiro no bolso e um número crescente de fiéis que acreditavam seriamente no outro mundo, os monges começaram a se julgar poderosos.
Monges guerreiros devastavam Quioto. Exércitos religiosos entravam em disputas políticas e moviam a política segundo os seus próprios interesses.
Foi nessa época que o imperador retirado Shirakawa lamentou que nem “o curso do rio Kamo nem os monges guerreiros” obedeciam à vontade de ninguém.
Os monges da seita Ikkō chegaram ao ponto de dominar Kaga.
Nobunaga decidiu então esmagar os monges que usavam a fé como instrumento de poder.
Atacou Ishiyama Hongan-ji, sede da seita Ikkō, e também Enryaku-ji, da seita Tendai, no Monte Hiei.
O Shinchō Kōki registra que todos foram mortos, inclusive mulheres e crianças.
A violência foi tamanha que Luís Fróis a denunciou como “obra do demónio”.
Mas a escritora histórica Nanami Shiono vê a questão de outro modo.
Depois de Nobunaga, diz ela, os monges finalmente aprenderam a conhecer o seu lugar e deixaram de interferir na política.
Havia ainda outra religião estrangeira: o cristianismo.
Pregava o amor de Deus enquanto se dedicava ao comércio de escravos.
Hideyoshi disse ao jesuíta Gaspar Coelho que aprendesse a comportar-se como um verdadeiro ser humano.
Coelho reagiu. Tentou mobilizar os daimyos cristãos e conspirou contra Hideyoshi.
Ieyasu e Iemitsu também rejeitaram esse caráter político do cristianismo.
Na Rebelião de Shimabara, mulheres e crianças também foram mortas.
Foi o momento em que os cristãos japoneses aprenderam onde estavam os seus limites.
O governo Meiji também proibiu rigorosamente, nos Cinco Editos Públicos, a propagação de doutrinas consideradas perniciosas, incluindo o cristianismo.
E, na verdade, os cristãos do outro lado do mar não haviam avançado tanto assim.
Nos Estados Unidos, até três anos antes, ainda utilizavam escravos negros. Quando isso foi proibido, passaram a comprar coolies.
No Japão, ao contrário, a religião havia sido disciplinada.
E não provocava convulsões políticas.
Então veio a derrota na guerra. E com ela apareceu MacArthur.
Um general derrotado pelo Exército japonês, que chegou a fugir diante do inimigo, mas que não compreendia a fonte da força japonesa: a grande causa.
Imaginou que essa força vinha simplesmente da fé nos deuses japoneses.
E impôs a Constituição do GHQ, tratando o xintoísmo como algo maligno.
A partir daí, prestar homenagem aos monumentos dedicados aos mortos pela pátria ou visitar Yasukuni passou a ser alvo de censura.
Ao mesmo tempo, em reação, budismo, cristianismo e outras religiões ganharam liberdade quase irrestrita.
A Aum assassinou três membros da família de um advogado e matou oito pessoas em Nagano.
Mesmo assim, sob o escudo da “liberdade religiosa”, chegou a dificultar a investigação policial.
A Soka Gakkai entrou na política — precisamente aquilo que Nobunaga jamais teria tolerado.
E Sun Myung Moon, beneficiado também pela mentira das mulheres de conforto propagada pelo Asahi Shimbun, fez japoneses pagarem dinheiro em nome da expiação e levou mulheres japonesas a entregar-se a coreanos como se fossem escravas sexuais.
Foi a arrogância de Sun Myung Moon que levou a Dieta, pela primeira vez, a apontar o bisturi para uma seita perniciosa que não o xintoísmo.
E, quase por acaso, começou finalmente a perceber a perversidade do problema.
Religiões estrangeiras não combinam com os japoneses.
Os deuses japoneses são os melhores.
